Relaxar completamente sem virar um pudim ambulante
- Andrei Moscheto
- há 2 dias
- 3 min de leitura

Artes marciais japonesas tendem a expressar seus princípios de maneira metafórica, poética, o que pode levar os alunos a profundas reflexões - ou apenas grandes confusões de conceito.
Recentemente fiz uma reflexão sobre um dos 4 princípios fundamentais de Shinshin Toitsu Aikido que é frequentemente traduzido para o português assim:
Relaxar completamente.
A frase, que parece tão simples e direta, pode fazer com que muitas pessoas de fora da prática do Ki-Aikido (e algumas de dentro) pensem que você deveria ser uma espécie de pudim ambulante, meio mole, e que isso magicamente teria algum valor marcial. Ao ver os vídeos de prática do fundador (Koichi Tohei Sensei) você vê tranquilidade, agilidade, postura, força, equilíbrio. Moleza não.
Talvez atrapalhe bastante a versão traduzida ter apenas duas palavras:
“RELAXAR” ou “RELAXE”, um verbo associado a lazer, dormir, anestesia, tirar a força. Na versão “relaxar” é um verbo, a ação de relaxar. Na versão “relaxe” é ordem, imperativo do verbo.
“COMPLETAMENTE”, totalidade, 100%
Se puxar o sentido literal das palavras, “relaxar completamente” faria você cair no chão e não levantar mais, porque qualquer ação em que seu corpo está de pé demanda alguma ativação física, o que nos dá a dúvida tanto sobre o COMPLETAMENTE com também do RELAXAR.
Devo seguir o conceito parcialmente?
Tem algum significado metafórico sobre onde relaxar?
No site https://shinshintoitsuaikido.org/ a frase usada atualmente é 全身の力を完全に抜く (Zenshin no chikara o kanzen ni nuku). Usando um modelo de IA para fazer a análise da frase:
“A instrução exige que o praticante extraia (nuku) completamente (kanzen ni) a força (chikara) de todo o seu ser físico (zenshin). “
Parece um pouco mais filosófico e extrair a força parece menos “pudim ambulante” - até porque tive a sorte de praticar Ki-Aikido com duas (talvez três) pessoas que tiveram contato direto com Koichi Tohei sensei e os seus contra-ataques não eram feitos de pudim nenhum.
A pergunta que permanece conosco, depois de pensar em traduções e conceitos originais do fundador: entre “pudim ambulante” e “100% não relaxado”, qual deveria ser o meu estado físico e mental ao praticar Ki-Aikido?
Quem recentemente me ajudou a pensar melhor neste princípio foi um malabarista chamado Liam Wilson. Num dos seus vídeos Liam fala sobre o simples ato de pegar uma bola. Nada mais mundano, certo? Mas ele demonstra que estar com a mão dura e rígida te impede de pegar a bola e, respeitando o seu corpo e deixando seus dedos fecharem naturalmente ao redor da bola (como resposta ao toque dela) faz toda a diferença. E, pra fechar naturalmente, a mão tem que estar relaxada, porém ativa.
Um “RELAXAMENTO ATIVO” do seu corpo! Ele não tem excesso de força (gasto desnecessário) e está pronto para ter movimentos naturais. Um excelente ensinamento marcial que pude ver, por outro ângulo, graças aos ensinamentos de um malabarista.
Existe valor em ensinamentos metafóricos, especialmente se eles te fazem trilhar o caminho da reflexão em busca do “verdadeiro significado” por trás da frase original, ou mesmo por te levar a encontrar novos conceitos.
O que aprendi com o devaneio de hoje:
Deixe que a mente reflita sobre conceitos filosóficos, independente do resultado ser novo ou mesmo de não ter resultado (fracassos também são processos de aprendizagem)
Busque um estado de relaxamento ativo, em que seu corpo está livre para fazer seus movimentos naturais
E um comentário que só funciona para quem já estuda no nosso Instituto:
Na dúvida, procure um professor com nome Wilson. Mesmo que ele esteja falando de outra coisa, pode ser que abra caminho para boas epifanias.
texto de Andrei Moscheto
Coordenador do Instituto Shukikan



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