A lenda violenta da vingança satisfatória
- Andrei Moscheto
- há 8 minutos
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Cresci sofrendo bullying, uma palavra estrangeira que mal era mencionada no início dos anos 90. Era quase sempre psicológico, algumas vezes físico (um soco, chute, beliscão, etc) e, no contraturno do sofrimento, eu idealizava como seria revidar. O prazer que teria ao responder cada agressão com uma agressão maior, como eu amaria humilhar todas as pessoas que tinham me xingado. Dentro da cabeça passavam filminhos em que eu, na posição de herói humilhado, ressurgia das cinzas e vencia os inimigos de forma retumbante.
Nunca aconteceu. As artes marciais entraram de vez na minha vida quando finalmente me dei conta que o humor poderia ser a minha conexão social com as pessoas ao meu redor. Mas, se o corpo maior tivesse se encontrado com o mesmo adolescente vingativo de uns anos antes, a minha história poderia ser diferente (leia-se: eu poderia ter apanhado muito mais, caso você ache que estou dizendo que seria o herói marcial das minhas fantasias juvenis).
Essas memórias voltaram quando vi um trecho de uma entrevista com o ator Terry Crews. Ele tem sido muito vocal sobre questões de masculinidade tóxica, abusos em ambientes profissionais e o sofrimento de violência doméstica com o seu pai.
Nessa última entrevista Terry conta sobre o fato de que "vingança pode ser mais satisfatória do que sexo" dentro do mundo da fantasia. Então ele relata sobre o dia em que, já adulto e com seu porte físico, descobriu que o pai tinha agredido novamente a sua mãe. Terry foi ao encontro do pai, confrontou suas atitudes e depois bateu nele, quase que num blackout de consciência, por toda a casa. Ele diz que pensava que, ao final, ele teria a sensação de realização, que seria preenchido por uma alegria sem fim. Afinal, finalmente, ele alcançou sua vingança.
Mas, quando ele parou, só sentiu vazio.
Filmes de vingança espalham a lenda de que dar o troco te dá uma imensa satisfação. Raramente isso é verdadeiro. Tenho alguns relatos muito próximos de alunas que usaram técnicas de Ki-Aikido para a sua autodefesa e que se sentiram entristecidas por machucarem outra pessoa. Pessoas empáticas não sentem prazer em agredir ninguém, mesmo aquelas pessoas que a machucaram - e abrir mão da sua empatia é abrir mão de quem você é.
Num momento social em que há tanta mentira online, tanto "influencer" dizendo bobagens sobre como deveria ser o comportamento masculino, é um alívio saber que artistas como Terry Crews estejam empenhados em esclarecer que violência não traz satisfação alguma. Esperamos estar fazendo o mesmo dentro do Instituto Shukikan.
Andrei Moscheto
professor de Ki-Aikido do Instituto Shukikan
post no Instagram com Terry Crews: https://www.instagram.com/p/DWjhFFkEct-/



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